Artigo: A EDUCAÇÃO DO FUTURO E O FUTURO DA EDUCAÇÃO

A EDUCAÇÃO DO FUTURO E O FUTURO DA EDUCAÇÃO

Por Fábio Silva.





Existem fortes críticas ao atual modelo educacional, e elas são legítimas. Utilizamos salas de aula que possuem a mesma configuração desde a Era medieval: carteiras enfileiradas, quadro negro na parede, professor prostado afrente da turma em um nível acima do alunato. Na contramão disso, temos outro erro comum: a crença que a tecnologia, por si só, resolveria os problemas, bastando colocar uma lousa digital no lugar do quadro negro, um tablet na mão de cada aluno e aplicativos de monitoramento nos smartphones dos pais.

A sociedade tem debatido a ressignificação da educação de forma muito superficial, pois não tem feito as perguntas necessárias para resolver esse impasse. A tecnologia é uma das muitas ferramentas com o qual podemos contar para construírmos a educação do futuro, mas ela não é a resposta para o futuro da educação. Neste texto, o meu convite é para refletirmos sobre a maneira como temos depositado nossas expectativas na tecnologia, e o entendimento que temos ou não sobre a educação ser o único agente capaz de transformar o indivíduo e a comunidade em uma civilização de pleno progresso e desenvolvimento sustentável.

É preciso ter muito cuidado para revisitar o passado e narrá-lo sob as lentes que utilizamos hoje, sob o risco de resgatarmos discursos nacionalistas da época em que uma sociedade imaginária era perfeita quando estava sob julgo militar ou pouco após o período da redemocratização, mas existem ali elementos que acredito que sejam importantes para serem contextualizados, e que talvez tenhamos perdido um pouco de sua essência no decorrer dos anos: o afeto como fator importante na construção do ser inserido no programa pedagógico da unidade escolar.

A escola (ou faculdade) de hoje tornou-se território hostil, e tablets ou lousas digitais não serão capazes de resolver isso se não compreendermos o momento em que nos colocamos. Desde o pai que não conseguiu dar ao filho a educação e os limites necessários para que ele saiba se portar adequadamente em público, e sua própria falta de participação do ambiente escolar; passando ainda pelo contexto das empresas que enxergam a educação como mercadoria, ou no Estado que não provê condições básicas para se proporcionar uma educação gratuita e de qualidade. Na trincheira desta zona de guerra está o professor e o aluno, que muitas vezes não contam com o apoio que precisam para estreitar os laços entre eles, pois agentes externos a essa relação (mas responsáveis por ele) não se integram ao projeto educacional e não comungam com o propósito de se estabelecer um pacto que defina a importância de se respeitar este espaço, e mais que isso, de torna-lo um lugar uterino, de afeto e compreensão.

Hoje parece que estamos distantes disso. Vemos disputas de egos e narrativas, construções de mitos e desconstruções de grandes filósofos patronos da educação. A escola tornou-se alvo de entraves políticos, até de uma busca pela militarização da sala de aula. Diversas escolas tem apagado fotografias de seus acervos nas redes sociais, pois pais ensandecidos não querem que imagens de seus filhos sejam capturadas, excluindo então a memória afetiva e os laços construídos da comunidade escolar com aquela criança. Educadores desgastados com a difícil rotina de ensinar nessa segunda década dos anos 2000, talvez imaginassem que as escolas do futuro tivessem o condão de potencializar o aprendizado, que teríamos hologramas na sala de aula, ou alunos chegando em carros voadores. O que encontramos são pessoas desinteressadas em aprender, sujeitos que preferem resumos ao invés do mergulho e entrega total a uma grande obra. Por último, o pior: espaços que carregam o nome de escola, mas não são um ambiente de educação, e sim um depósito humano onde pessoas se digladiam diariamente, em nome de algo que elas sequer sabem o que é.

Por fim, a minha proposta para uma educação do futuro e um futuro da educação, não é a busca por uma escola ultra tecnológica e cheia de modernidade. É uma pausa nisso tudo, e um chamado para simplificarmos o processo de aprendizado, com o resgate de saberes, trocas de experiências, o ouvir do outro e pelo outro. Sentar-se ao chão, recolher-se na natureza, inspirar o ar e trocar afetos. O futuro da educação não está em uma tela digital. Está no reflexo dos olhos de quem ensina e de quem aprende. Está em falar, ouvir, tocar, sentir. Precisamos sair da ilusão de que a tecnologia possui todas as respostas, quando na realidade não procuramos evoluir internamente na mesma velocidade que a tecnologia evolui por fora.

Esse é o futuro da educação.


Fábio Silva é colaborador do Instituto IGEVE. Advogado ativista pela educação e direitos humanos, é pós graduado em direito público pela PUC-MG, e é estudante bolsista do MBA de Gestão de Alta Performance da ESAMC, a escola superior de administração, marketing e comunicação. É pesquisador do IBI, o Instituto Brasil Israel, e candidato ao mestrado em direito pela PUC-SP.

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